terça-feira, 10 de junho de 2025

A Mendicidade Avulsa: Entre Semáforos e Silêncios

Por: Fátima Abdin Martins (Neblina)

Todos os dias, ao acordar do céu sobre Maputo, as ruas ganham vida — ou talvez, denunciem a ausência dela. Entre carros de porte médio, pequeno e grande, erguem-se pés sedentos de esperança, mas descalços de lar. São os filhos da cidade, os filhos de ninguém, numa coreografia amarga pelas avenidas, onde a dignidade se mendiga em silêncio.

Na longa procissão das calçadas, as crianças da mendicidade avulsa vagueiam, enfileiradas como retalhos de um destino roto. A cada semáforo, uma súplica. A cada vidro fechado, um grito calado. E os semáforos da 24 de Julho e da Eduardo Mondlane já sabem de cor os ecos dessas histórias: são confessionários urbanos de pequenas almas que aprenderam a sobreviver nos interstícios do desprezo.

A cidade, essa espectadora apressada, finge não ver. Mas os olhos da infância, mesmo marejados de poeira, não mentem: são janelas para uma dor antiga que se veste de hoje.

Metáforas de abandono andam de mãos dadas com pedaços de sorrisos caídos no esquecimento. Uma maçã mordida, um pão pela metade, uma moeda lançada com pressa — são os prémios efémeros da sorte diária.

E quando chega Junho, ah, Junho! O mês das crianças! Uma hipérbole de homenagens, palcos floridos, discursos de ocasião. Como um flash de luz que ilumina por segundos um palco vazio. Porque no dia dois, no três, e nos restantes dias, o esquecimento volta a cair como uma cortina pesada.

A teoria da agulha hipodérmica, antiga mas ainda útil, fala de como as massas absorvem mensagens sem filtro. E talvez por isso, as campanhas públicas que deviam comover, já não comovem. A repetição anestesiou a empatia. Por outro lado, os líderes de opinião, aqueles que sorriem nas telas, que influenciam multidões com um gesto, uma frase, uma publicação — esses, tantas vezes, são a agulha que fura o lugar errado. Enaltecem causas momentâneas, enquanto crianças reais derretem-se ao sol das avenidas.

As figuras públicas deviam ser mais que rostos bonitos: deviam ser vozes incômodas. Devia caber-lhes o papel de sacudir consciências, não apenas partilhar brindes em datas comemorativas.

A mendicidade avulsa não pede só pão. Pede um novo pacto social. Um gesto. Um plano. Um amanhã.

Porque nenhuma criança devia ter por brinquedo o medo e por cobertor o cimento frio da cidade.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

Candidaturas abertas para estágios profissionais nas Indústrias Culturais e Criativas em Moçambique

Estão oficialmente abertas as candidaturas para a 2.ª edição do programa Estagi'Arte, uma iniciativa inserida no projecto Cultiv’Arte, que visa impulsionar a formação prática de jovens moçambicanos no vasto universo das Indústrias Culturais e Criativas (ICCs).

O programa oferece estágios profissionais remunerados, com uma duração que varia entre 3 a 6 meses, em instituições culturais de referência no país. Os candidatos seleccionados beneficiarão ainda de passagem aérea (ida e volta), subsídio de acomodação para não residentes e seguro contra acidentes de trabalho.

A iniciativa destina-se a jovens moçambicanos entre os 18 e os 35 anos, oriundos de todas as províncias, que sejam estudantes ou recém-graduados do ensino técnico-profissional ou superior em áreas ligadas às ICCs, ou que estejam já activos no sector cultural e criativo.

As candidaturas devem ser submetidas até ao dia 30 de Junho de 2025.

O programa Cultiv’Arte é uma iniciativa da União Europeia, implementada pela Expertise France, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura de Moçambique.

Esta é uma oportunidade ímpar para jovens talentos ganharem experiência profissional, desenvolverem competências e fortalecerem a sua rede no vibrante sector cultural moçambicano.


Leia o Regulamento Aqui




domingo, 8 de junho de 2025

Sabores da Moamba: Festival de Carne Caprina celebra gastronomia, cultura e independência económica

Num ambiente onde o aroma da brasa se mistura com o batuque e os sorrisos, Moamba voltou a provar, neste sábado 7 de Junho de 2025, por que razão é considerada a capital da carne caprina em Moçambique. A quarta edição do Festival de Carne Caprina, realizada no coração da vila, trouxe mais do que pratos típicos e boa música: trouxe esperança, negócios e uma forte mensagem de soberania alimentar.

Presidido pelo Governador da Província de Maputo, Manuel Simão Nuvunga Tule, o evento destacou os resultados concretos do investimento na pecuária. A província produziu mais de 114 mil toneladas de carne em 2024, com previsão de crescimento 4% até 2029. Segundo Tule, o Governo Provincial continuará a investir na melhoria genética dos caprinos, vacinação, infra-estruturas e capacitação de criadores.

Uma das novidades mais aplaudidas foi a excursão de comboio até ao festival. A viagem, que partiu de Maputo com dezenas de entusiastas, foi uma verdadeira experiência sensorial: paisagens rurais, paragens estratégicas, jogos tradicionais, chás naturais e um almoço digno de um banquete cultural. Uma forma engenhosa de unir turismo, lazer e identidade gastronómica.

Durante todo o dia, o Jardim da Vila de Moamba foi palco de exposições, degustações, bolsas de contacto, concursos e espectáculos musicais. A carne caprina — estrela do evento — foi apresentada em versões tradicionais e criativas: grelhada, guisada, seca e até reinventada por jovens chefs da região.

Ao som de marrabenta, afro-fusão e ritmos tradicionais, o público pôde apreciar a energia viva da cultura moçambicana, enquanto negócios eram fechados entre produtores, comerciantes e instituições.

Reconhecido como o segundo maior produtor de gado caprino, a nível da província de Maputo, com uma população de 120 mil cabeças, Moamba demonstra, com este festival, o potencial económico e cultural da sua produção local. Com apoio de marcas como Coca-Cola, Vodacom, Rompco, e de parceiros institucionais como a CED Moamba e HlambeTweni, o festival tornou-se uma marca anual que atrai investidores, turistas e amantes da boa mesa.

Mais do que uma festa, o Festival de Carne Caprina é um manifesto: pela valorização do campo, pela independência económica das comunidades e pela cultura que alimenta o corpo e a alma.

sábado, 7 de junho de 2025

Sweet Soul promete encantar com espectáculo de Beatbox no Makhall’Artes

O colectivo moçambicano Sweet Soil prepara-se para subir ao palco do Espaço Recreativo Makhall’Artes, no próximo dia 20 de Junho, com o espectáculo intitulado “Início de uma nova história”, um evento que marca simbolicamente o caminho rumo ao lançamento do seu primeiro álbum.

Cartaz do evento 

Com início marcado para as 18h30, a apresentação terá como elemento central o Beatbox, uma forma de percussão vocal em que o artista reproduz sons de bateria, ritmos, linhas de baixo e até melodias, apenas com o uso da boca, lábios, língua e voz. Este estilo, nascido da cultura hip hop, tem ganho novas dimensões criativas ao redor do mundo e, em Moçambique, vem sendo explorado com crescente originalidade por jovens artistas como os membros de Sweet Soil.

O evento realizar-se-á na Polana Caniço, mais precisamente na Rua Gare de Mercadorias, onde se encontra o Espaço Recreativo Makhall’Artes, conhecido por acolher iniciativas culturais inovadoras e por fomentar talentos emergentes da cena artística moçambicana.

Os bilhetes estão disponíveis a 100 Meticais para o público geral e 50 Meticais para estudantes, tornando o acesso à cultura mais inclusivo e participativo. 

Com produção do Makhall’Artes o evento promete não só entretenimento de qualidade, como também o reforço da música feita com alma em Moçambique.

Sweet Soil, através desta apresentação, quer deixar uma marca no panorama musical nacional, abrindo caminho para novas narrativas sonoras e afirmando o Beatbox como arte transformadora.

Crónica de um chapa enlatado

 Por: Xisto Fernando

Xisto Fernando 

No chapa, essa gloriosa lata ambulante de almas comprimidas, viaja-se com o corpo colado e a paciência em modo de sobrevivência. É um universo próprio, paralelo, um teatro improvisado onde cada passageiro, cobrador e motorista interpreta o seu papel com convicção digna de Oscar.
Há os passageiros distraídos, os que entram no chapa com a cabeça nas nuvens e o corpo no banco, e só quando a cidade já vai a meio é que acordam aos berros:
— Paragem, paragem, cobrador! Já passámos a minha paragem!
Como se o cobrador fosse também cartomante ou navegador de Google Maps.
Há os passageiros em crise financeira permanente, que sobem com cara de quem vai a um funeral e declaram com voz sofrida:
— Mano cobrador, só tenho 10 meticais, vou descer na Brigada.
Se o chapa estiver vazio, o cobrador faz-se de generoso. Mas se estiver cheio, responde com diplomacia bruta:
— Isso aqui não é carro de esmola, maningue!
As senhoras das trouxas, ah, essas são personagens centrais. Sobem com sacos de verdura, arroz, um bidão de cinco litros e, por vezes, uma galinha com cara de quem não aprovou a viagem. Falam, resmungam, murmuram orações, discutem o preço do tomate e ainda arranjam tempo para corrigir a roupa das outras.
Depois temos os acidentalmente democráticos, aqueles que normalmente só se movem de táxi, mas nesse dia, por obra do destino ou da carteira, apanharam chapa. Sentem-se violados quando alguém lhes encosta um braço ou, pior, um sovaco:
— Senhor, está a me tocar, há respeito!
E os analistas políticos do chapa, claro, não podem faltar. Começam tímidos e, de repente, já estão a vociferar contra a FRELIMO, o Presidente, a CNE, o tempo seco e até a falta de troco. Tudo com argumentos do tipo “eu ouvi dizer”, mas falam com tanto fervor que o chapa todo vira Assembleia da República em movimento.
Há também os briguentos crónicos, especialistas em transformar qualquer frase do cobrador num insulto pessoal. Discutem sobre o troco, o banco apertado, o tempo de espera na paragem e até sobre o volume da música. São como fogueiras secas: basta uma faísca, e pegam fogo.

Não esqueçamos os passageiros VIP, que sobem no Saul e descem no Micael. Pagam os 15 meticais como se tivessem financiado o próprio chapa e dizem, com voz de porcelana:
— Não quero queimar com sol, meu irmão.
O cobrador olha e pensa: “Se calhar pensa que isto é Yango Premium.”
Mas o elenco principal não termina aqui.
Há os pregadores ambulantes, que entram com a Bíblia numa mão e o inferno na outra. Gritam versículos em Dolby Surround e prometem salvação gratuita — excepto do calor e da má condução.
Os amantes discretos sentam-se sempre juntos, falam baixinho, e riem de tudo. São os únicos que parecem felizes ali dentro. Já os músicos frustrados cantam com os fones no ouvido, mas desafinam em voz alta. E, claro, os dorminhocos profissionais, que adormecem no instante em que sentam e acordam já na última paragem, babados e sem saber em que bairro estão.

Quanto aos cobradores, esses são uma espécie em vias de multiplicação. Temos:
O simpático, que até ajuda a senhora com a trouxa e diz “obrigado, mãezinha”.
O arrogante, que acha que os passageiros são sacos de batata empilháveis e grita:
— Quatro-quatro, lá atrás! Encosta, amigo, não estamos no Alex Bottle Store!
O intelectual da esquina, que usa óculos sem lentes, fala palavras como “déficit” e “paradigma”, mas não sabe dar troco de 100 meticais.
O filósofo de paragem, que pergunta a cada passageiro:
— A vida é andar ou ficar? Vens ou vamos?
E, claro, o entrevistador, que quer lotação, mas selectiva — como se fosse dono de uma empresa de táxi aéreo.
O cobrador entrevistador, esse não deixa ninguém subir sem uma breve triagem:
— Vais descer aonde, chefe?
Se o passageiro responde algo como "Zimpeto" ou "Museu", o cobrador fecha a porta e atira um seco:
— Estamos só a levar pessoal curto, não queremos pedras.
Para este tipo de cobrador, passageiro que fica muito tempo dentro do chapa sem descer é considerado "pedra" — e o chapa, aparentemente, não é camião de brita.

E os motoristas? Ah, esses são sacerdotes da velocidade. Uns parecem ter sido treinados pelo Schumacher, com curvas que desafiam as leis da física e da misericórdia. Outros conduzem ao ritmo do hino nacional, especialmente quando há polícia na estrada. Alguns são mudos, outros cantam alto, e há até o DJ oficial, que mete marrabenta das antigas no volume máximo e canta por cima:
— Isto sim é música, não esse vosso rap de estrangeiro!
Viajar de chapa não é apenas transporte. É uma experiência sociológica, uma aula de teatro e um exercício de paciência tudo junto. Quem nunca andou de chapa, não conhece o povo. E quem anda todos os dias, bem... já deixou de sentir o cotovelo no rim e aprendeu a rir no meio do aperto.



sexta-feira, 6 de junho de 2025

Assa Matusse em Concerto no Centro Cultural Moçambique-China

A cantora moçambicana Assa Matusse sobe ao palco do Centro Cultural Moçambique-China, em Maputo, no próximo dia 13 de Junho de 2025, para um concerto especial marcado para as 20 horas.

Assa Matusse

Conhecida pelo seu estilo arrojado e presença magnética, Assa Matusse prepara um concerto que funde tradição e modernidade, num alinhamento pensado ao detalhe para emocionar e fazer dançar. E para tornar a noite ainda mais especial, o público contará com actuações dos convidados Mingas, lenda viva da música nacional, e Tabasily.

Os bilhetes estão a ser vendidos em duas fases. Durante o mês de Junho (Fase 2), o custo é de 1200 meticais, e no próprio dia do espectáculo (Fase 3), os ingressos estarão disponíveis por 1500 meticais. As entradas podem ser adquiridas através da plataforma Computicket, nas lojas Shoprite.

Este concerto tem o apoio do Centro Cultural Moçambique-China e promete ser um momento ímpar de celebração musical e de valorização da música nacional.








Recordando Podina de Dilon Djidji

“Podina” é muito mais do que uma canção popular: é um fragmento da alma moçambicana. Composta e interpretada por Dilon Djidji, mestre incontestável da marrabenta tradicional, esta música evoca as marcas de um tempo, de uma gente e de uma maneira de sentir o mundo através do corpo e da palavra.

Dilson Djidji 

Uma melodia que dança com a memória

Musicalmente, Podina é um hino à simplicidade rítmica e à profundidade emocional. A guitarra, quase sempre presente nas obras de Djidji, tece uma linha melódica repetitiva, com sabor de quintal e calor de festa. A percussão, subtil mas constante, embala o ouvinte num transe ligeiro, como se chamasse os pés a moverem-se mesmo contra a vontade.

A voz de Djidji entra com suavidade e autoridade ancestral — não canta apenas, narra, revive e aconselha. Há algo de espiritual no modo como conduz a música: como se cada nota fosse também um grão de memória, um passo de regresso ao passado.


️A letra: entre o lamento e a sabedoria

Cantada em xichangana, a letra de Podina carrega a sabedoria popular dos bairros de Maputo e a sensibilidade de um homem que viu e sentiu o mundo com os pés descalços. O refrão, repetido com insistência quase ritual, transforma a música numa espécie de feitiço poético — impossível de esquecer depois de ouvido.

Embora muitos associem Podina a um simples tema amoroso, a sua força está na ambiguidade lírica: fala-se de perda, de partida, de ausência — mas com um sorriso nos lábios e ritmo nos quadris. É a tristeza dançada, o sofrimento celebrado com dignidade.


 Uma cápsula do tempo cultural

Mais do que entretenimento, Podina é um documento vivo. Representa uma época em que a marrabenta era o jornal do povo, a rádio da rua, a cartilha da vida. Num tempo em que a cultura se globaliza e se uniformiza, esta canção mantém-se firme como bastião da identidade moçambicana.

Ao ouvir Podina, somos transportados para os quintais de Marracuene, os salões de cimento batido, as noites de luar com música a sair de um rádio velho equilibrado na janela.


 Quem foi Dilon Djidji?

Dilon Djidji, nascido em 1939 em Marracuene, foi cantor, compositor e guitarrista moçambicano, reconhecido como um dos guardiões da marrabenta tradicional. Autodidacta, começou a compor ainda jovem, captando a vida quotidiana do povo com olhar crítico e poético.

Ao longo de décadas, firmou-se como referência artística e cultural, resistindo à modernização da música com fidelidade ao estilo tradicional, sempre em língua local. Ganhou o respeito de músicos e estudiosos, mesmo tendo permanecido à margem dos grandes palcos e holofotes comerciais.

Faleceu a 17 de Janeiro de 2023, aos 84 anos, deixando um legado sonoro e espiritual que continua a ecoar nos bairros, nos rádios comunitários e nos corações daqueles que o ouviram ao vivo, ou que agora, ao recordá-lo, sentem que o tempo da música verdadeira não tem fim.



Veja o vídeo clipe da música aqui



quinta-feira, 5 de junho de 2025

Lizha James assume vice-presidência do pelouro da Cultura na CTA

A célebre cantora moçambicana Lizha James, ícone incontornável da música urbana no país, foi recentemente nomeada Vice-Presidente do Pelouro da Cultura na Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA). 

Lizha James

Esta nomeação marca um ponto de viragem na ligação entre os sectores da arte e da economia em Moçambique, e revela um novo reconhecimento da importância estratégica da cultura no desenvolvimento nacional.

Conhecida pelo seu percurso artístico de excelência, Lizha – cujo nome completo é Elisa Lisete James Humbane – é mais do que uma artista: é uma empreendedora cultural, uma activista e uma referência da juventude moçambicana. Ao assumir agora funções no seio da CTA, a artista passa a desempenhar um papel de influência institucional, onde se espera que o seu saber e sensibilidade possam contribuir para políticas mais inclusivas, sustentáveis e voltadas à valorização do sector criativo.

A CTA, ao integrar figuras de prestígio ligadas à produção artística e cultural, dá um passo inovador na reestruturação dos seus pelouros sectoriais. O objectivo é claro: aproximar a criação cultural das esferas de planeamento económico, promovendo o diálogo entre empresários, artistas e decisores políticos.

Importa referir que Lizha James tem-se mantido activa no panorama cultural nacional e internacional. Em 2024, foi distinguida no prestigiado Zikomo Awards, onde dedicou o prémio ao povo moçambicano, reiterando a força da cultura como alicerce de resistência e esperança.

A entrada de Lizha na CTA não é apenas simbólica – representa um reposicionamento do sector cultural como agente económico, gerador de emprego, identidade e inovação. Espera-se, assim, que a sua acção inspire novas políticas públicas, investimentos sustentáveis e uma maior visibilidade dos criadores moçambicanos no panorama africano e global.







“Comboio de Sal e Açúcar” em exibição no CCP-Beira: Uma viagem cinematográfica pela história de Moçambique

No dia 24 de Junho, às 15 horas, o Centro Cultural Português na Beira acolhe a exibição do aclamado filme Comboio de Sal e Açúcar, de Licínio Azevedo, no contexto das celebrações dos 50 anos da Independência de Moçambique. Mais do que uma sessão de cinema, este será um reencontro com a história, a dor e a resistência do povo moçambicano — contadas através da sétima arte.

Realizado por Licínio Azevedo, cineasta e escritor brasileiro radicado em Moçambique, Comboio de Sal e Açúcar é um retrato cinematográfico profundamente humano e intenso, baseado no romance homónimo do próprio autor. A narrativa conduz o espectador a um dos períodos mais marcantes da história recente do país: a década de 1980, durante a guerra civil.

Na época, enquanto o açúcar rareava nas zonas controladas pelo governo, o sal era abundante na costa. Assim surgiu o chamado "comboio do sal", que partia rumo ao Malawi com o objectivo de trocar o produto precioso por açúcar. A viagem de quase 700 quilómetros era, porém, tudo menos segura — marcada por emboscadas, sabotagens e o terror do conflito armado.

É nesse cenário que conhecemos Rosa, uma enfermeira corajosa, e o tenente Taiar, oficial encarregado da segurança da missão. Através do olhar destas personagens, o filme mergulha nas tensões da guerra, mas também nas relações humanas que florescem no meio do caos.

A produção é um exemplo de colaboração internacional, envolvendo Moçambique, Portugal, Brasil, África do Sul e França. Com um orçamento de cerca de 90 milhões de meticais, o projecto mobilizou mais de 70 técnicos e cerca de 300 figurantes. No elenco, destacam-se nomes como Melanie de Vales Rafael, Matamba Joaquim, Thiago Justino e Absalão Narduela.

Comboio de Sal e Açúcar tem vindo a ser aclamado além-fronteiras, com distinções em importantes festivais internacionais. Entre os prémios, contam-se Melhor Filme no Joburg Film Festival, Melhor Realizador e Melhor Guião no Festival de Cinema Africano de Khouribga, e a Pirâmide de Prata no Festival Internacional de Cinema do Cairo. Em 2017, o filme foi submetido como representante moçambicano ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

A exibição na Beira surge como um gesto simbólico: celebrar a independência através da arte, da memória e do poder do cinema. Um convite aberto ao público para revisitar o passado, reflectir o presente e projectar o futuro.

A entrada é gratuita, mas recomenda-se reserva antecipada.



Brasil e Moçambique de mãos dadas pela literatura: começou hoje a Mostra Conexão Piauí–Maputo

Arrancou hoje, em Maputo, a Mostra Brasil–Moçambique: Conexão Piauí–Maputo, uma celebração cultural que une o coração do Nordeste brasileiro às paisagens literárias de Moçambique. O evento decorre até sábado, 7 de Junho, no Instituto Guimarães Rosa – Maputo, e promete ser uma travessia poética entre continentes, histórias e afectos.

Organizada por Marleide Lins (Brasil) e Ernesto Moamba (Moçambique), com realização da Avant Garde em parceria com o Instituto Guimarães Rosa e outras entidades culturais, a mostra abre espaço para diálogos entre escritores, académicos e o público apaixonado pelas letras.


 Literatura em destaque

Entre os nomes mais aguardados está Paulina Chiziane, ícone das letras moçambicanas e primeira mulher do país a receber o prestigiado Prémio Camões. A escritora junta-se a um grupo de autores moçambicanos contemporâneos que representam o pensamento crítico, a oralidade e as novas linguagens da literatura africana de língua portuguesa.

Do Brasil, as académicas e escritoras Assunção Sousa, Márcia Evelin e Ruth Lajes trazem consigo o peso da investigação, da palavra feminina e das narrativas negras e periféricas, ligando as margens do Atlântico por meio da escrita.


Um encontro necessário

Mais do que um evento literário, a Mostra Conexão Piauí–Maputo é um gesto político, estético e afectivo. Uma oportunidade rara para testemunhar o poder da palavra na construção de pontes entre realidades distantes, mas profundamente conectadas pela língua, pela memória e pela luta por dignidade cultural.

A entrada é gratuita, e a cidade de Maputo está convidada a participar neste mergulho entre mundos.





CCFM e Conselho Municipal de Maputo assinam memorando para reforçar acesso à cultura e educação

O Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM) e o Conselho Municipal de Maputo firmaram na passada, Quinta-feira, (29 de Maio de 2025) um memorando de entendimento com vista à promoção da mediação cultural e do acesso à arte como instrumento de educação e transformação social.

José-Maria Queirós e Rasaque Manhique

O acordo foi assinado pelo Presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, e pelo Director do CCFM e Adido Cultural da Embaixada de França em Moçambique, José-Maria Queirós. Entre as acções previstas destaca-se a cedência de transporte para alunos das escolas públicas, permitindo a sua participação nas actividades culturais organizadas pelo CCFM. A medida visa aproximar comunidades periféricas do centro da cidade e fomentar a aprendizagem através da arte.

A cerimónia contou com a presença do Embaixador de França em Moçambique, Yann Pradeau, e de Ericka Bareigts, presidente do município francês de Saint-Denis, na Ilha da Reunião, que se encontra em visita institucional a Maputo. A dirigente francesa reuniu-se com o edil da capital moçambicana para discutir possíveis formas de cooperação entre as duas cidades.

O memorando representa um passo significativo na valorização da cultura como ferramenta de inclusão social, reforçando o compromisso da França com o desenvolvimento cultural de Moçambique.

Com esta iniciativa, o CCFM e o Conselho Municipal de Maputo pretendem construir uma cidade mais inclusiva, criativa e próxima da juventude.



"Entre Risos e Riscos": o curta moçambicano onde o riso flerta com o perigo

O que pode acontecer numa simples noite passada num bar de bairro? Em Entre Risos e Riscos, do realizador moçambicano Valé Valentão, essa pergunta transforma-se numa viagem sensível por entre afectos, silêncios e tensões que atravessam a juventude das periferias urbanas.

Com menos de oito minutos, o filme apresenta dois amigos que, entre gargalhadas e desabafos, partilham a leveza dos sonhos e o peso dos riscos que os rodeiam. A narrativa, embora breve, é densa em significado — uma espiral de intimidade e inquietação onde o espectador é convidado não só a ver, mas a escutar.

A estética do filme equilibra o cru e o poético. A luz acompanha a viragem emocional da narrativa: das tonalidades quentes da partilha para as sombras que anunciam o perigo. A câmara aproxima-se dos actores — cujas interpretações, contidas e naturais, evocam um realismo comovente. Cada gesto é carregado de intenção, cada pausa é um eco do quotidiano periférico.

Em nota oficial, o realizador afirma que o filme é um “convite à escuta sensível das histórias que cruzam as ruas, os bares, os silêncios e os pequenos gestos que dizem muito”. A obra é, nas palavras de Valé, “o risco de rir da própria dor e, ainda assim, seguir dançando”.

Conhecido pela sua trajectória como músico e promotor cultural, Valé Valentão estreia-se no cinema com uma voz autoral marcante, apostando no cinema como espaço de transformação e diálogo. Entre Risos e Riscos é distribuído pela NetKanema (em destaque nesta plataforma, a sensivelmente dois meses) e encontra-se disponível na plataforma FilmFreeway, onde já desperta atenção por sua ousadia estética e compromisso social.

O filme conta com participação dos actores: Valé Valentão, Fernando Macamo, António Sítio, Francisco Nuvunga, Chapéu Boaventura e Aurélio Xivithi


Assista o filme clicando aqui (film free away)

Assista o filme clicando aqui (netkanema)









quarta-feira, 4 de junho de 2025

Jogos Tradicionais Invadem o Jardim do CCMA

Maputo – O Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA) vai acolher, no próximo dia 14 de Junho, uma animada tarde de Oficinas Infantis de Jogos Tradicionais, conduzidas por Mateus Nhamuche, artista e entusiasta da cultura moçambicana.

cartaz do evento 

A partir das 14 horas, o jardim do CCMA transformar-se-á num autêntico campo de diversão, onde os mais pequenos poderão mergulhar no universo lúdico dos jogos que marcaram a infância de muitas gerações. Entre os destaques estão o Zoto, Latoleta, Pijonse e o sempre nostálgico jogo de berlindes.

A actividade tem o custo simbólico de 150 meticais por criança e pretende proporcionar momentos de aprendizagem, socialização e resgate da memória cultural infantil. Contudo, as crianças só poderão participar se estiverem acompanhadas pelos seus encarregados de educação.







Énia Lipanga regressa aos palcos com poesia bruta e necessária

O palco do 16Neto, em Maputo, volta a vibrar esta quarta-feira com a voz crua e lírica de Énia Lipanga, que apresenta a reposição da sua performance poética “Com Quantos Paus se Faz uma Carreira?”, marcada para as 19h00. A obra, que já arrebatou o público numa sessão anterior, regressa com a mesma fúria serena e poesia cortante.

Énia Lipanga

Nesta performance classificada para maiores de 18 anos, a palavra não é apenas som — é corpo, é gesto, é resistência. Énia convoca as histórias silenciadas de mulheres que enfrentam, nas suas trajectórias profissionais, desafios que se entranham no tecido social e cultural. São violências subtis, mas estruturantes. São paus invisíveis que constroem — ou impedem — carreiras.

No cartaz de divulgação, a artista segura um pedaço de cartão onde se lê: “A vida das mulheres importa.” E esse é, talvez, o verso que melhor condensa a proposta do espectáculo: um chamamento à escuta, à empatia e à urgência de mudança.

A performance será também transmitida em simultâneo no canal de YouTube do 16Neto, mas quem estiver em Maputo poderá vivê-la ao vivo no 16Neto, Avenida Agostinho Neto. Os bilhetes custam 200 meticais (normal) e 100 meticais (estudantes), disponíveis a partir de 2 de Junho, às 10h00.

Com o apoio da Embaixada da Suíça em Moçambique, este evento integra uma linha curatorial que tem dado destaque a novas vozes da poesia moçambicana, com foco em temáticas urgentes como género, poder e liberdade.





Antologia Brasil-Moçambique promove intercâmbio literário entre autores dos dois países

Obra reúne cinquenta vozes poéticas de diferentes gerações e será lançada em Maputo no Instituto Guimarães Rosa.

Cartaz do lançamento do evento 

A Antologia Brasil-Moçambique, fruto de uma parceria entre Brasil e Moçambique, destaca-se como um projecto de intercâmbio poético e diálogo intercultural entre dois países historicamente ligados por laços linguísticos e culturais. A obra reúne cinquenta autores, entre nomes consagrados e contemporâneos, promovendo um encontro literário que atravessa fronteiras e celebra a diversidade das expressões afro-diaspóricas.

Organizada por Marleide Lins e pelo escritor moçambicano Ernesto Moamba, a antologia conta com curadoria dos professores-doutores Elio Ferreira e Assunção Sousa, da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). O projecto foi realizado pela Avant Garde Edições, em parceria com o NEPA/UESPI, o CCBM – Moçambique e com patrocínio da ASSAAC e do SIEC/SECULT, ambos ligados ao Governo do Estado do Piauí.

Entre os autores brasileiros presentes na obra estão Solano Trindade, Luiz Gama, Conceição Evaristo, Salgado Maranhão, Edimilson de Almeida Pereira, Cristiane Sobral e Ronald Augusto, entre outros. Do lado moçambicano, figuram nomes como Noémia de Sousa, José Craveirinha, Paulina Chiziane, Mia Couto, Hirondina Joshua, Luís Carlos Patraquim e Alex Dau, entre outros.

Já lançada em várias feiras e salões literários no Brasil e em Cuba, a Antologia Brasil-Moçambique vem ganhando espaço também no meio académico. A obra é actualmente estudada em disciplinas dos cursos de Letras da UESPI e da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

O próximo lançamento acontecerá em Maputo, no Instituto Guimarães Rosa, onde será realizado um encontro especial com autores, leitores e estudiosos, reforçando a proposta de confluência de saberes e valorização da literatura lusófona.




terça-feira, 3 de junho de 2025

“Minha Shuga”: entre o luxo do amor e o vício do consumo

Por: Xisto Fernando

Num cenário urbano onde o romantismo é frequentemente filtrado por filtros de Instagram e sonhos de ostentação, Dygo Boy e Bander oferecem-nos “Minha Shuga”, uma canção que mais do que cantar o amor, o consome — como um produto, como uma marca. Lançada como parte do álbum Frescolândia Vol. 1, a faixa tornou-se um hino pop nas pistas e nas ruas, mas também um espelho da juventude moçambicana contemporânea, dividida entre o desejo de afecto e a necessidade de status.

Dygo Boy e Bander 

A “shuga” como figura social

A palavra “shuga” — derivada de “sugar” (que em português significa, açúcar) — remete-nos ao universo das relações em que o amor, ou algo parecido com ele, se mistura com interesses materiais. Não é um conceito novo, mas em “Minha Shuga” é ressignificado: não se trata apenas de uma mulher sustentada por um homem rico, mas de uma relação de troca afectiva onde ambos, homem e mulher, partilham uma fantasia de ascensão e prazer.

A “shuga” é tratada como símbolo de poder feminino e objecto de desejo simultaneamente. Esta dualidade é o ponto mais interessante — e controverso — da música: celebra-se a mulher empoderada, mas também se recorre a clichês de beleza, luxo e consumo como provas de valor.


Produção sonora: entre o afro-pop e a sedução digital

Musicalmente, a canção é uma fusão habilidosa de afro-pop com elementos electrónicos que piscam o olho ao R&B contemporâneo. A produção é limpa, sensual, bem estruturada, com ênfase nos refrões e numa base rítmica que convida à dança tanto quanto à contemplação.

Bander, com a sua voz melódica e sedutora, é o contraponto ideal para o flow mais directo e carismático de Dygo Boy. Ambos constroem uma narrativa a dois tempos: a sedução e a celebração. Não há aqui um conflito dramático, mas uma exaltação do estilo de vida aspiracional — onde o amor é servido com champanhe e selfie.


Cultura pop e o retrato da juventude urbana

“Minha Shuga” faz parte de um novo arquivo simbólico da música urbana moçambicana, em que os temas clássicos — amor, desejo, pertença — são reconstruídos à imagem das redes sociais, da estética trap e da lógica do consumo. A canção fala para uma geração que procura validação emocional e social através da aparência, da posse e da performance pública do afecto.

Este tipo de narrativa pode, para alguns, parecer superficial. No entanto, é também profundamente reveladora de um tempo em que os afectos já não se exprimem apenas em cartas de amor, mas em likes, brindes e hashtags.


Crítica ou espelho?

Importa perguntar: “Minha Shuga” é uma crítica ou um espelho da sociedade actual? Talvez ambas. Ao exagerar nos estereótipos, Dygo Boy e Bander oferecem-nos uma caricatura tão exagerada que se torna real. Não nos dizem como o amor deve ser, mas mostram como ele é muitas vezes vivido — com desejo, com interesse, com filtros e brilho.

“Minha Shuga” é uma música que se dança antes de se pensar (muitos críticos consideram a música banal,— mas quando se pensa, revela-se um artefacto poderoso da cultura urbana. Uma crónica pop sobre os afectos capitalizados, onde o amor ainda é possível, mas precisa de um bom telemóvel, uma conta recheada e um sorriso perfeito para ser notado. E isso, por si só, diz muito sobre nós.

A canção Minha Shuga não foi escrita para a elite — ou, pelo menos, não para os que se dizem apreciadores da arte erudita. Muitos entre eles apressam-se em classificá-la como um som banal, sem densidade nem mérito. No entanto, de banal essa melodia nada tem. Por trás do ritmo aparentemente leve, esconde-se uma crítica mordaz aos afectos líquidos da juventude actual, aos seus haveres amorosos voláteis e às transacções sentimentais que hoje se disfarçam de paixão.








Prémios Mozal Artes e Cultura 2025 já estão com candidaturas abertas

Estão abertas as candidaturas para a 5.ª edição dos Prémios Mozal Artes e Cultura, uma iniciativa da Kulungwana – Associação para o Desenvolvimento Cultural em parceria com a Mozal, que visa destacar o talento de jovens artistas moçambicanos nas mais diversas áreas da criação artística.

O concurso abrange as categorias de Artes Visuais, Cinema e Audiovisuais, Dança, Fotografia, Teatro, Design de Moda e Vestuário, e Música, e é dirigido a artistas nacionais com idades entre os 21 e os 40 anos. As candidaturas devem ser submetidas online, através do portal da Kulungwana, entre os dias 12 de Maio e 30 de Junho.

Segundo a directora executiva da Kulungwana, Henny Matos, o principal objectivo do prémio é reconhecer o potencial criativo do país, dar visibilidade aos melhores talentos e apoiá-los no processo de profissionalização. “Ambicionamos que todos os jovens artistas nacionais conheçam estes prémios e se sintam motivados a participar, pois acreditamos que um dos maiores contributos que podemos oferecer à cultura moçambicana é a capacitação dos seus fazedores”, referiu.

Durante o período de candidaturas, serão promovidas sessões de esclarecimento e workshops sobre a preparação de portfólios profissionais, com vista a apoiar os candidatos na organização das suas propostas.

Desde a sua criação, em 2018, os Prémios Mozal já nomearam 70 artistas e distinguiram 25 vencedores, de acordo com a directora de Assuntos Externos da Mozal, Lucrécia Uamba. O valor total dos prémios atribuídos ao longo das edições ultrapassa os três milhões de meticais, sendo que cada vencedor de categoria receberá 120 mil meticais, além de oportunidades de projecção a nível nacional e internacional.

“Estamos comprometidos com a valorização do potencial criativo dos nossos artistas. Mais do que premiar, queremos criar uma plataforma de visibilidade, estímulo e reconhecimento para os criadores moçambicanos, cuja dedicação e inovação representam o futuro das artes no país”, frisou Uamba, acrescentando que é expectativa da Mozal que o concurso tenha representatividade de todos os pontos do território nacional.

Com esta edição, os Prémios Mozal Artes e Cultura reforçam o seu papel enquanto instrumento de promoção da diversidade cultural, inclusão social e profissionalização das artes em Moçambique.


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segunda-feira, 2 de junho de 2025

Virgília Tembo Ferrão e João Borges de Oliveira vencem programa de intercâmbio literário 2025

A escritora moçambicana Virgília Tembo Ferrão e o autor português João Borges de Oliveira foram anunciados como os vencedores da edição de 2025 do programa de intercâmbio literário luso-moçambicano, uma iniciativa que promove o diálogo entre culturas através da escrita e da residência artística.

Virgília Ferrão e João Borges de Oliveira 
                      

Os dois autores terão a oportunidade de viver experiências literárias imersivas em cidades que simbolizam o elo histórico e cultural entre Moçambique e Portugal. Virgília Tembo Ferrão estará em residência durante o mês de maio, em Lisboa, onde desenvolverá novos trabalhos e participará em actividades culturais com escritores e leitores locais. Já João Borges de Oliveira viajará até Maputo, em outubro, para uma estadia criativa que lhe permitirá mergulhar na paisagem literária e social moçambicana.

Este intercâmbio representa mais do que uma simples troca geográfica: é um encontro de vozes, vivências e imaginários que enriquecem o panorama literário de ambos os países. A iniciativa reforça o compromisso com a valorização da lusofonia e a promoção da literatura como instrumento de aproximação entre povos.

MOÇAMBIQUE FAZ HISTÓRIA NO MUNDIAL DE POESIA COM ELIANE BUTELANE

Paris, França — A noite de 31 de Maio de 2025 ficará gravada na história da literatura moçambicana. A jovem poeta Eliane Butelane subiu ao palco do Temple de Belleville, em Paris, para disputar a Grande Final do Grand Poetry Slam Internacional, enfrentando finalistas da Costa do Marfim, Suíça, Bélgica, Irlanda e Escócia. Embora não tenha conquistado o primeiro lugar, Eliane tornou-se a primeira moçambicana a alcançar a final mundial, um feito inédito após sete anos de participação nacional no certame.

                        Actuação da Eliane em Paris

Representando Moçambique e o continente africano ao lado do poeta marfinense, Eliane encantou o público com a força das suas palavras, em apenas três minutos intensos que evocaram a resistência do povo moçambicano, a alma das suas ruas e o sonho de um título para Moçambique e para África.

O comunicado oficial do MOZ SLAM – Campeonato Moçambicano de Poesia Falada destaca que, apesar de Eliane não ter subido ao pódio, ela "trouxe algo maior: a prova de que Moçambique pode chegar ao topo."

Segundo Hamilton Chambela, SlamMaster do movimento, “Ela abriu a estrada; agora, convocamos todos os poetas moçambicanos a seguir seus passos. A revolução da poesia só começou.”

A transmissão ao vivo do evento foi acompanhada por centenas de seguidores através do canal oficial do Grand Slam no YouTube, e as redes sociais encheram-se de mensagens e hashtags de apoio.


Uma conquista colectiva

A presença de Eliane na competição internacional só foi possível graças a uma mobilização conjunta entre instituições moçambicanas e parceiras. O projecto contou com o apoio da Embaixada da França em Moçambique, responsável pela emissão do visto e passagem aérea, bem como da Embaixada da República de Moçambique em França, que acolheu a poeta em solo francês.

A Universidade Joaquim Chissano (UJC), onde Eliane estuda, teve papel fundamental no incentivo ao seu percurso artístico. Já o colectivo MozEtudiant, núcleo dos estudantes moçambicanos em França, prestou apoio logístico à participação. O movimento Muthiana Slam e a produtora Palavra & Palavras Eventos também foram fundamentais na trajectória da poeta.


O futuro do slam moçambicano

A 7ª edição do MOZ SLAM já está em curso e, com o eco da actuação de Eliane em Paris, os olhos voltam-se agora para a próxima temporada e para o nome que representará Moçambique no Mundial de Poesia 2026.

Wi-Fi na Educação: Vilão ou Aliado?

 Por: Fátima Abdin Martins (Neblina)

                        Fátima Abdin Martins (Neblina)

A presença do Wi-Fi nas escolas de ensino técnico e secundário tem-se intensificado, marcando cada vez mais o quotidiano estudantil. Os corredores escolares tornaram-se autênticos centros digitais, onde o apego aos telemóveis de diferentes tamanhos, cores e marcas já não é apenas tendência, mas parte do comportamento colectivo. A pergunta impõe-se: estaremos a viver uma revolução educacional ou a assistir à desconstrução silenciosa da atenção em sala de aula?

O Wi-Fi pode ser entendido como um avião sem fronteiras – ninguém fica de fora deste voo virtual, onde não há fiscais a controlar o que levamos na bagagem digital. E é justamente aí que reside o paradoxo: será o Wi-Fi um aliado ou um inimigo da aprendizagem?

Quando mal-utilizado, torna-se um vilão silencioso, certificado para entreter e distrair: vídeos irrelevantes, músicas sem contexto académico, jogos e redes sociais que afastam os alunos do foco. Mas, quando usado com consciência, revela-se um protagonista valioso no apoio à investigação, ao acesso a conteúdos actualizados e à democratização do saber.

Cabe à comunidade escolar – alunos, professores e gestores – assumir uma posição crítica e responsável. É fundamental promover uma literacia digital que capacite os estudantes a filtrar e avaliar informações de forma autónoma. Afinal, a tecnologia por si só não educa nem deseduca: é o uso que dela se faz que define o seu papel.

Em tempos de bolsos rotos e recursos limitados, o Wi-Fi apresenta-se como um verdadeiro salva-vidas, permitindo acesso contínuo ao conhecimento sem custos adicionais. Contudo, é urgente debater, de forma participativa, como usá-lo para potenciar a educação e não para diluí-la.

Usar o Wi-Fi pode ser “maningue nice”, sim — mas para que seja verdadeiramente “fine”, é preciso educar para o digital.